A
inquietação é fascinante. Como as pessoas nunca estão satisfietas com
seu lugar no metrô ou com a cor de seu carro. Quanto mais presto atenção em mim
mesmo e nas pessoas que passam por mim diariamente, penso convicto: nós não
estavamos prontos para a enxurrada de informações que vivemos hoje. Para mim,
vejo a inquietude como resultado da indecisão. Vejo isso sempre. É como se,
quando construindo uma composição, vacila-se entre horizontal e vertical. Para o
pensamento metódico de hoje, fotografe quadrado. Eu vi um turista na praia,
símbolo do consumismo para qualquer cultura, experimentou dezenas de óculos
escuros num camelô qualquer. Entre todos ele repetiu três. Escolhia com tanto zelo
que parecia a santissima trindade da proteção solar para os olhos vendidos a
meros vinte reais a unidade. Me parecia que a cada óculos era um olhar
diferente. Era um personagem diferente, como se com cada um ele enxergava uma
camada de cor diferente, ou amasse uma pessoa diferente. Talvez uma
medida desesperada de sair da mesmice ou um mergulho mais necessitado ainda para
o encontro com a indecisão. Tirava um e colocava o outro repetidamente,
incansávelmente. Não sei se ele esperava algum esboço de aprovação de alguém, ou
até de si próprio, mas acabei por imaginar o uso daqueles “filtros” pra ele.
Cada um com uma função, mas todos com o mesmo fim. Tanta imagem no espelho,
assim como tanta imagem na cabeça dele, assim como tanta imagem na TV,
assim como tanta imagem no PC. Cada dia menos conversas, menos sorrisos diretos,
menos olhos nos olhos. Cada vez mais samples e menos música. Tantas opções,
para que escolher, leva os três, ora. Ninguém mais hoje tem só uma personalidade.
Ninguém agora é só uma coisa ou outra, Deus te livre se fores só uma "coisa",
com certeza és atrasado. Para que essa pressa de viver? Essa pressa de ver tudo
numa lente marrom, outra preta e uma amarelo “bono vox”? Tudo de uma vez só,
imediatista radical e cruel. Ninguem mais quer alguém que fantasie, que
saboreie, que tenha gosto. A sociedade não aceita mais o positivismo. Para o
gringo, assim como para todos nós, não ter que ter opinião é a saída mais facil
e obvia. É a saída imediata. O verdadeiro efeito metrópole, ou a doença da pressa. Por que correr para fora já que se pode dar um passo
mais para dentro? Viver por viver, seguindo a maré, nadar contra ou apenas dar braçadas na direção que desejar. Ter como caminho corredores ou lugares não trilhados? Ir no mesmo restaurante comer o prato de sempre ou arriscar o "novo" da esquina? Sufocar-se ou forçar uma respiração tão profunda de doer nas costas? Comprar um raibã, um óklei ou um dizél?
