sábado, 17 de março de 2012

Differentia



Desde que eu comecei a levar a sério essa observação diária de pessoas, mesmo antes do blog, ou até antes mesmo de ter tanta seriedade nessa observação, a minha janela tomou o lugar da TV. Quando chove é a mesma sensação de quando a imagem da TV chuvisca. Mas as janelas também são molduras de cenas vivas, de contrastes e de vidas que por ali passam, param e assistem. De dentro para fora e de fora para dentro, as janelas nos presenteiam com enquadramentos e composições dignas de Robert Doisneau, Cartier-Bresson ou Sebastião Salgado.

Um pouco mais de um mês atrás fui até laranjeiras visitar um amigo, recebi um telefonema e por isso não subi logo no prédio. Assim eu vi, pela moldura de uma janela uma moça loira, de olhos azuis, esguia carregando um bebê de poucos meses de vida, por sua vez negro e bem rechonchudo. Impossível de Não notar o carinho do leite com o café. O mais belo contraste da natureza quando a luz chegava forte pela janela. Tentei adivinhar a história desses dois. É impossível não se perguntar sobre as tonalidade das pele, como seria a vida dos dois? Seriam parentes? Seriam só eles dois? A construção do preto no branco, a observação da luz e da sombra, do contraste. Luz de janela. Vida, amor, carinho e diferenças. Melhores, um para o outro, inseparáveis como numa mistura. “Amor é quando as diferenças não são mais capazes de separar.” (J. de Bourbon Busset)

Assim imagino os dois, inseparáveis, em luz, cor, pigmento e contraste. Mas com um sentimento em comum, amor. Concluo ainda que não há tal sentimento, não há amor capaz de sobreviver a igualdade.

Verbo Ser – Carlos Drummond de Andrade

Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.

Um comentário:

  1. Ser dói, é bom e é triste e a diferença só existe para quem enxerga algo que não vê.

    Jessyka Sampaio

    ResponderExcluir