terça-feira, 27 de março de 2012

Pater



Qualquer um que observasse a cena provavelmente tiraria a mesma conclusão. Me arrisco a dizer que inclusive os que viveram a cena, se nunca instigados a pensar sobre ou a relembrar com convalescência da pessoa, também devem tirar a mesma conclusão. Eu explico. Família sai sempre unida, quase todos esperam o ultimo membro sair do carro para caminha juntos. Um não espera. O pai sai na frente com um ar dúbio e antagônico de pressa e sossego. Caminha bem a frente, e se indagado a parar, olha pra trás, finge-se de surdo, e continua andando. As vezes olha pro chão, como quem guarda algo pra si. Algo que se tornaria tão corriqueiro que transformaria seu nome num adjetivo para descrever quem tem o mesmo costume.

Qualquer um o taxaria de uma figura relapsa, talvez insensível ou até mal humorada. Qualquer um que não fosse buscar a verdadeira história por trás dos personagens. Me dedicando a pensar sobre isso, sobre esse vão que o separava da sua família somente na hora de um deslocamento rápido, me fizeram refletir.

Se hoje entendo o mundo de alguma forma, se a fotografia me ensinou alguma coisa sobre viver, foi experimentar vários ângulos com diferentes áreas focais. Para refletir sobre esse vou deixar o diafragma quase nada aberto, deixando assim o foco em todos os meus planos de visão.

Abruptamente, logo no início de minhas reflexões, imagino que essa figura patriarcal sai na frente, não por desleixo, mas como guia. Como um incansável guia que além de mostrar o caminho, se propõe a pisar e identificar o buraco primeiro, a chutar as pedras do caminho e varrer todo o perigo que possa vir. Um dos instintos mais básicos do ser humano: a proteção a prole. Fingir-se de surdo, nessas horas, ou entoar palavras de pressa, devem ser as formas mais simples e diretas que, em meio ao cumprimento de sua missão, esse anjo da guarda, seja como Yesalel ou Cahethel, ou como os dois ao mesmo tempo. Ter isso, ter essa proteção, essa união, esse gesto, se pensado com lógica sem o carinho que merece, pode ser incrivelmente injustiçado.

As vezes não compreendemos a composição de nosso dia-a-dia, nos acostumamos a olhar sempre sobre os mesmos ângulos e só ver interesse no novo. As incertezas, as novidades, o desfragmentado é sensual aos olhos. Usar esses mesmos olhos e enxergar amor no comum, no normal, é ser fonte de luz. Não é um conselho, é um pedido, olhem seus protetores, sejam eles pais, mães, familiares, amigos, ou até o desconhecido que reza por você, olhem pra eles com olhos de amor. Enxerguem em gestos fúteis todo o carinho e a atenção que vocês desejem ter de volta.

“Não me lembro de nenhuma necessidade da infância tão grande quanto a necessidade da proteção de um pai.“ (Sigmund Freud in O mal estar na civilização).

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