segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Commoveo


     
     A inquietação é fascinante. Como as pessoas nunca estão satisfietas com seu lugar no metrô ou com a cor de seu carro. Quanto mais presto atenção em mim mesmo e nas pessoas que passam por mim diariamente, penso convicto: nós não estavamos prontos para a enxurrada de informações que vivemos hoje. Para mim, vejo a inquietude como resultado da indecisão. Vejo isso sempre. É como se, quando construindo uma composição, vacila-se entre horizontal e vertical. Para o pensamento metódico de hoje, fotografe quadrado. Eu vi um turista na praia, símbolo do consumismo para qualquer cultura, experimentou dezenas de óculos escuros num camelô qualquer. Entre todos ele repetiu três. Escolhia com tanto zelo que parecia a santissima trindade da proteção solar para os olhos vendidos a meros vinte reais a unidade. Me parecia que a cada óculos era um olhar diferente. Era um personagem diferente, como se com cada um ele enxergava uma camada de cor diferente, ou amasse uma pessoa diferente. Talvez uma medida desesperada de sair da mesmice ou um mergulho mais necessitado ainda para o encontro com a indecisão. Tirava um e colocava o outro repetidamente, incansávelmente. Não sei se ele esperava algum esboço de aprovação de alguém, ou até de si próprio, mas acabei por imaginar o uso daqueles “filtros” pra ele. Cada um com uma função, mas todos com o mesmo fim. Tanta imagem no espelho, assim como tanta imagem na cabeça dele, assim como tanta imagem na TV, assim como tanta imagem no PC. Cada dia menos conversas, menos sorrisos diretos, menos olhos nos olhos. Cada vez mais samples e menos música. Tantas opções, para que escolher, leva os três, ora. Ninguém mais hoje tem só uma personalidade. Ninguém agora é só uma coisa ou outra, Deus te livre se fores só uma "coisa", com certeza és atrasado. Para que essa pressa de viver? Essa pressa de ver tudo numa lente marrom, outra preta e uma amarelo “bono vox”? Tudo de uma vez só, imediatista radical e cruel. Ninguem mais quer alguém que fantasie, que saboreie, que tenha gosto. A sociedade não aceita mais o positivismo. Para o gringo, assim como para todos nós, não ter que ter opinião é a saída mais facil e obvia. É a saída imediata. O verdadeiro efeito metrópole, ou a doença da pressa. Por que correr para fora já que se pode dar um passo mais para dentro? Viver por viver, seguindo a maré, nadar contra ou apenas dar braçadas na direção que desejar. Ter como caminho corredores ou lugares não trilhados? Ir no mesmo restaurante comer o prato de sempre ou arriscar o "novo" da esquina? Sufocar-se ou forçar uma respiração tão profunda de doer nas costas? Comprar um raibã, um óklei ou um dizél?

terça-feira, 27 de março de 2012

Pater



Qualquer um que observasse a cena provavelmente tiraria a mesma conclusão. Me arrisco a dizer que inclusive os que viveram a cena, se nunca instigados a pensar sobre ou a relembrar com convalescência da pessoa, também devem tirar a mesma conclusão. Eu explico. Família sai sempre unida, quase todos esperam o ultimo membro sair do carro para caminha juntos. Um não espera. O pai sai na frente com um ar dúbio e antagônico de pressa e sossego. Caminha bem a frente, e se indagado a parar, olha pra trás, finge-se de surdo, e continua andando. As vezes olha pro chão, como quem guarda algo pra si. Algo que se tornaria tão corriqueiro que transformaria seu nome num adjetivo para descrever quem tem o mesmo costume.

Qualquer um o taxaria de uma figura relapsa, talvez insensível ou até mal humorada. Qualquer um que não fosse buscar a verdadeira história por trás dos personagens. Me dedicando a pensar sobre isso, sobre esse vão que o separava da sua família somente na hora de um deslocamento rápido, me fizeram refletir.

Se hoje entendo o mundo de alguma forma, se a fotografia me ensinou alguma coisa sobre viver, foi experimentar vários ângulos com diferentes áreas focais. Para refletir sobre esse vou deixar o diafragma quase nada aberto, deixando assim o foco em todos os meus planos de visão.

Abruptamente, logo no início de minhas reflexões, imagino que essa figura patriarcal sai na frente, não por desleixo, mas como guia. Como um incansável guia que além de mostrar o caminho, se propõe a pisar e identificar o buraco primeiro, a chutar as pedras do caminho e varrer todo o perigo que possa vir. Um dos instintos mais básicos do ser humano: a proteção a prole. Fingir-se de surdo, nessas horas, ou entoar palavras de pressa, devem ser as formas mais simples e diretas que, em meio ao cumprimento de sua missão, esse anjo da guarda, seja como Yesalel ou Cahethel, ou como os dois ao mesmo tempo. Ter isso, ter essa proteção, essa união, esse gesto, se pensado com lógica sem o carinho que merece, pode ser incrivelmente injustiçado.

As vezes não compreendemos a composição de nosso dia-a-dia, nos acostumamos a olhar sempre sobre os mesmos ângulos e só ver interesse no novo. As incertezas, as novidades, o desfragmentado é sensual aos olhos. Usar esses mesmos olhos e enxergar amor no comum, no normal, é ser fonte de luz. Não é um conselho, é um pedido, olhem seus protetores, sejam eles pais, mães, familiares, amigos, ou até o desconhecido que reza por você, olhem pra eles com olhos de amor. Enxerguem em gestos fúteis todo o carinho e a atenção que vocês desejem ter de volta.

“Não me lembro de nenhuma necessidade da infância tão grande quanto a necessidade da proteção de um pai.“ (Sigmund Freud in O mal estar na civilização).

quarta-feira, 21 de março de 2012

Heri


Ontem (domingo, 18 de março) quando almocei tardiamente sozinho num restaurante reparei num senhor, talvez esse tratamento seja exagerado, ele devia ter no máximo os seus 55 ou 56. Bem, é estranho dizer isso, mas tive um pouco da certeza do que ou de quem era. É um desses sujeitos que falta complacência da vida. Almoçar sozinho num restaurante em pleno domingo beirando as 5 da tarde? O mais interessante é que qualquer definição que eu fizesse em relação a ele, o mesmo, praticamente, poderia ser dito de mim. Será que já é hora de um espelho, espelho meu? Tentei fugir disso, resoluto de que toda essa nova experiência de morar só não é nem de longe uma dor, mas chega a ser um desafio.

Voltando ao tal senhor, que pediu um tenro filé com fritas ao molho madeira. Enquanto eu comia um frango recheado com gorgonzola, pensei nesse dilema e resolvi elevar o nível do latim no blog. Resolvi, alem de inspirar o nome do blog e das postagens, ir mais longe tomando como base dessa observação a LEX PARSIMONIAE, (entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem ou as entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade), mais ou menos uma versão em latim da Navalha de Occam. Então, vamos manter as coisas simples.

Avaliando pela idade, imaginei logo um homem divorciado ou viúvo, com filhos já casados e morando longe. Sem netos ainda e pela falta de interesse no jogo, não era flamenguista. De descrição física, me chamou a atenção a fronte, parte coberta por óculos escuros que falhavam na função de esconder o cenho sempre franzido. Rosto largo, meio desforme, nariz e orelhas grandes, brincos nas duas (crises de meia idade talvez?), costeletas tão grisalhas quanto a juba. É um daqueles exemplares em extinção que ainda usa o guardanapo como um babador, preso na blusa. Apreciava bastante o gosto e a suculência da carne, sem dividir as mastigadas desta com os acompanhamentos. Penso nele como uma pessoa além do tempo comum ao domingo e refém dele em todos os outros dias, por isso a maldita revolta de almoçar as 17. Se o falta amor, cor ou alguém, não sei dizer, mas com certeza ele revive algo anterior a essa almoço cada vez que suspira e se perde no horizonte torto da borda do prato. Olhando concentrado para o nada. Pedaço de bife espetado e molho pingando. E nada. Nada além daquele olhar firme para o vazio, típico de quem se perde pensando em coisas mais importantes do que a própria existência pra si. Chega a ser místico, uma confusão de sabores e de atitudes, parece que deram um pause nele com algum controle. De repente com um leve espasmo ele volta ao mundo real. Ao bife, ao molho e as fritas, até o próximo suspiro, até o próximo olhar perdido na retidão do tempo e nas curvas da borda de um prato.

“Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.”

(Vinicius de Moraes)

sábado, 17 de março de 2012

Differentia



Desde que eu comecei a levar a sério essa observação diária de pessoas, mesmo antes do blog, ou até antes mesmo de ter tanta seriedade nessa observação, a minha janela tomou o lugar da TV. Quando chove é a mesma sensação de quando a imagem da TV chuvisca. Mas as janelas também são molduras de cenas vivas, de contrastes e de vidas que por ali passam, param e assistem. De dentro para fora e de fora para dentro, as janelas nos presenteiam com enquadramentos e composições dignas de Robert Doisneau, Cartier-Bresson ou Sebastião Salgado.

Um pouco mais de um mês atrás fui até laranjeiras visitar um amigo, recebi um telefonema e por isso não subi logo no prédio. Assim eu vi, pela moldura de uma janela uma moça loira, de olhos azuis, esguia carregando um bebê de poucos meses de vida, por sua vez negro e bem rechonchudo. Impossível de Não notar o carinho do leite com o café. O mais belo contraste da natureza quando a luz chegava forte pela janela. Tentei adivinhar a história desses dois. É impossível não se perguntar sobre as tonalidade das pele, como seria a vida dos dois? Seriam parentes? Seriam só eles dois? A construção do preto no branco, a observação da luz e da sombra, do contraste. Luz de janela. Vida, amor, carinho e diferenças. Melhores, um para o outro, inseparáveis como numa mistura. “Amor é quando as diferenças não são mais capazes de separar.” (J. de Bourbon Busset)

Assim imagino os dois, inseparáveis, em luz, cor, pigmento e contraste. Mas com um sentimento em comum, amor. Concluo ainda que não há tal sentimento, não há amor capaz de sobreviver a igualdade.

Verbo Ser – Carlos Drummond de Andrade

Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.

terça-feira, 13 de março de 2012

Potens Digito


Alguns dias atrás eu vi uma pessoa resguardando a ponta do dedo. Tudo que fazia, fazia sem usar a ponta do indicador, como se lá guardasse algo importante, como se em um toque ela fosse capaz de ganhar o mundo. A um fotografo, que tem na ponta desse mesmo dedo “o momento decisivo”, seria o óbvio compará-la a ele. Mas eu não o fiz. Era algo diferente. Não era sólido e mecânico como a obtenção de uma imagem fotográfica, mas em contra partida, tinha muito da mesma sensibilidade, da mesma poética. Comecei a imaginar o que seria esse poder. Me remeti a infância dessa mulher, lá pelos seus 6 ou 7 anos, que, ao ler livrinhos de estórinhas infantis, usava a ponta deste mesmo dedo como um marcador de seus olhos. Um dos tantos movimentos automáticos que nós criamos para evoluir. Seriam os olhos que seguiam os dedos, ou os dedos que seguiam os olhos?

Ano após ano, livro após livro, o dedo indicador foi perdendo lugar para a habilidade desenvolvida pelos olhos, pelo o olhar. Foi tornando-se coadjuvante. Como ele teria dado a volta por cima? Como, a alguns dias atrás, ele se tornou ator principal novamente? Depois de muito degladiar entre idéias, uma cena tomou a minha atenção pra si. O dedo passeava com cuidado e perícia sobre a superfície de um aparelho sensível ao toque. Ao fim de um relato, dois toques sobre o texto. Pronto, estava tudo na ponta do seus indicador. Com muito cuidado ela conduzia o texto de carona até o lugar e momento apropriado. Tomando cuidado para não desperdiçá-lo na alça de uma caneca de café, ou numa mão apertada. Posto o seu fim, seu objetivo, enfim visto na tela, o indicador cumpre a sua função. Passa e repassa ensinamentos, ternura, carinho ou até um endereço qualquer. Assim como um dedo de um fotografo passa emoções através do click. Penso eu, o quanto feliz é a genética humana, herdei um dedo super poderoso de uma mulher super poderosa.


Post dedicado à Regina, Etienne, Helder e a todos os amigos fotógrafos os quais eu convido a reler o texto pensando como fotógrafos.


Fernando Pessoa - O mundo não se fez para pensarmos nele

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…

Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender …

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar …
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Caritatis

Um dia desses, voltando pra casa, vi uma senhora no metrô, sentada bem a frente de mim. Impossível de passar despercebida, a senhora tinha um porte corpulento, levava uma criança, a qual ela chamava de filho, numa cadeira de rodas. Além disso, conversava gritando com uma moça conhecida ao seu lado. Antes de me ater a observa-la, pensei em todos os fardos que a vida tinha imposto aquela mulher, tantas coisas ruins que suas palavras ressoavam. Saturada de dores, a decepção com o que a vida tinha trazido pra ela nos últimos dias era perceptível. As vezes em gestos, palavras, grunidos, ou nas eternas marcas cutâneas de preocupação. Tudo tão monocromático como o dia cinzento que teimava a se estender ainda em tempos de horário de verão. Percebi então, que teria que prestar mais atenção as palavras dela. Quando comecei, coincidentemente ou não, a senhora pelejava sobre sua insatisfação com o pagameto divino de toda a sua bondade. Ela que adotou o menino com sérios problemas mentais, o que acabou aumentando o custo familiar dela em tantos reais, que adotou a sobrinha para que o padastro não abusasse dela. E como tudo se despedaçava tão severamente quanto os murros que ela ameaçava dar nessa filha adotiva. Me perguntei o quanto é preciso para alguém que ajuda se arrepender de ajudar. A resposta mais fácil é que depende de cada um. Mas tem que haver uma linha, tênue ou não, ultrapassada por aquela senhora. Suspiros ofegantes e exaltados que praticamente premeditavam um ataque cardíaco, são interrompidos pela moça de ouvidos misericordiosos: “Desceremos na próxima estação”. Antes que eu pudesse concluir meus pensamentos e chegar ao meu próprio entendimento, o vagão para, a porta se abre, pessoas entram antes da senhora sair empurrando a cadeira de rodas, da uma risada que rasga um silencio concedido por alguns segundos que a mesma não balbuciava chingamentos. Então conclui: “Se o juizado não tirar ela de vez de mim, eu me aposento e tiro ela da noite”.

Filantropia de verdade, não espera nada em troca, nem um pedido de obrigado ou de desculpas.


A Caridade

(Machado de Assis, in Crisálidas)

"Ela tinha no rosto uma expressão tão calma
Como o sono inocente e primeiro de uma alma
Donde não se afastou ainda o olhar de Deus;
Uma serena graça, uma graça dos céus* *,
Era-lhe o casto, o brando, o delicado andar,
E nas asas da brisa iam-lhe a ondear
Sobre o gracioso colo as delicadas tranças.

Levava pela mão duas gentis crianças.

Ia caminho. A um lado ouve magoado pranto.
Parou. E na ansiedade ainda o mesmo encanto
Descia-lhe às feições. Procurou. Na calçada
À chuva, ao ar, ao sol, despida, abandonada
A infância lacrimosa, a infância desvalida,
Pedia leito e pão, amparo, amor, guarida.

E tu, ó Caridade, ó virgem do Senhor,
No amoroso seio as crianças tomaste,
E entre beijos – só teus — o pranto lhes secaste
Dando-lhes leito e pão, guarida e amor."





domingo, 11 de março de 2012

Natus



Desde que reli Viver Para Contar, de Gabriel Garcia Marques, pela segunda vez, venho observando algumas coisas no cotidiano e delas tento sugar o fascínio, as amenidades, misturando tudo com um pouco de imaginação. As vezes um tantão.
Faltava coragem pra levar a ideia a diante e criar o blog. Pois bem, posterguei a preguiça e, hoje, nasce o In Casus. Esse exercício de observar tudo ao redor, de deixar ouvidos e nariz atentos, é de fato aguçado pela minha paixão pela fotografia. Essa paixão me trouxe a uma fase nova da minha vida, a uma nova cidade, a um novo tempo, a uma nova rotina. Essa paixão também me levou a Manoel de Barros. O seu poema chamado O Fotógrafo, que me impulsionou no meu trabalho de conclusão da graduação, me fez descrever em palavras tudo ao redor, mesmo que dentro da minha cabeça, sem por na ponta do lápis, ou do dedo. Eis a obra.

O Fotógrafo

(Manoel de Barros)

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim num beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada mais na existência do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotogafei o perdão.
Vi um paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim cheguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski – seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.


Assim, espero que essa minha aventura, talvez um experimento ego-social, me leve a ampliar o meu campo de visão, eleve minha sensibilidade ao mundo e traga a chance de gostosas viagens em personagens, em parte, reais. Fica o convite a rever o cotidiano, a satura-lo com as emoçoes e pigmenta-los com a criatividade.