quarta-feira, 21 de março de 2012

Heri


Ontem (domingo, 18 de março) quando almocei tardiamente sozinho num restaurante reparei num senhor, talvez esse tratamento seja exagerado, ele devia ter no máximo os seus 55 ou 56. Bem, é estranho dizer isso, mas tive um pouco da certeza do que ou de quem era. É um desses sujeitos que falta complacência da vida. Almoçar sozinho num restaurante em pleno domingo beirando as 5 da tarde? O mais interessante é que qualquer definição que eu fizesse em relação a ele, o mesmo, praticamente, poderia ser dito de mim. Será que já é hora de um espelho, espelho meu? Tentei fugir disso, resoluto de que toda essa nova experiência de morar só não é nem de longe uma dor, mas chega a ser um desafio.

Voltando ao tal senhor, que pediu um tenro filé com fritas ao molho madeira. Enquanto eu comia um frango recheado com gorgonzola, pensei nesse dilema e resolvi elevar o nível do latim no blog. Resolvi, alem de inspirar o nome do blog e das postagens, ir mais longe tomando como base dessa observação a LEX PARSIMONIAE, (entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem ou as entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade), mais ou menos uma versão em latim da Navalha de Occam. Então, vamos manter as coisas simples.

Avaliando pela idade, imaginei logo um homem divorciado ou viúvo, com filhos já casados e morando longe. Sem netos ainda e pela falta de interesse no jogo, não era flamenguista. De descrição física, me chamou a atenção a fronte, parte coberta por óculos escuros que falhavam na função de esconder o cenho sempre franzido. Rosto largo, meio desforme, nariz e orelhas grandes, brincos nas duas (crises de meia idade talvez?), costeletas tão grisalhas quanto a juba. É um daqueles exemplares em extinção que ainda usa o guardanapo como um babador, preso na blusa. Apreciava bastante o gosto e a suculência da carne, sem dividir as mastigadas desta com os acompanhamentos. Penso nele como uma pessoa além do tempo comum ao domingo e refém dele em todos os outros dias, por isso a maldita revolta de almoçar as 17. Se o falta amor, cor ou alguém, não sei dizer, mas com certeza ele revive algo anterior a essa almoço cada vez que suspira e se perde no horizonte torto da borda do prato. Olhando concentrado para o nada. Pedaço de bife espetado e molho pingando. E nada. Nada além daquele olhar firme para o vazio, típico de quem se perde pensando em coisas mais importantes do que a própria existência pra si. Chega a ser místico, uma confusão de sabores e de atitudes, parece que deram um pause nele com algum controle. De repente com um leve espasmo ele volta ao mundo real. Ao bife, ao molho e as fritas, até o próximo suspiro, até o próximo olhar perdido na retidão do tempo e nas curvas da borda de um prato.

“Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.”

(Vinicius de Moraes)

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