terça-feira, 13 de março de 2012

Potens Digito


Alguns dias atrás eu vi uma pessoa resguardando a ponta do dedo. Tudo que fazia, fazia sem usar a ponta do indicador, como se lá guardasse algo importante, como se em um toque ela fosse capaz de ganhar o mundo. A um fotografo, que tem na ponta desse mesmo dedo “o momento decisivo”, seria o óbvio compará-la a ele. Mas eu não o fiz. Era algo diferente. Não era sólido e mecânico como a obtenção de uma imagem fotográfica, mas em contra partida, tinha muito da mesma sensibilidade, da mesma poética. Comecei a imaginar o que seria esse poder. Me remeti a infância dessa mulher, lá pelos seus 6 ou 7 anos, que, ao ler livrinhos de estórinhas infantis, usava a ponta deste mesmo dedo como um marcador de seus olhos. Um dos tantos movimentos automáticos que nós criamos para evoluir. Seriam os olhos que seguiam os dedos, ou os dedos que seguiam os olhos?

Ano após ano, livro após livro, o dedo indicador foi perdendo lugar para a habilidade desenvolvida pelos olhos, pelo o olhar. Foi tornando-se coadjuvante. Como ele teria dado a volta por cima? Como, a alguns dias atrás, ele se tornou ator principal novamente? Depois de muito degladiar entre idéias, uma cena tomou a minha atenção pra si. O dedo passeava com cuidado e perícia sobre a superfície de um aparelho sensível ao toque. Ao fim de um relato, dois toques sobre o texto. Pronto, estava tudo na ponta do seus indicador. Com muito cuidado ela conduzia o texto de carona até o lugar e momento apropriado. Tomando cuidado para não desperdiçá-lo na alça de uma caneca de café, ou numa mão apertada. Posto o seu fim, seu objetivo, enfim visto na tela, o indicador cumpre a sua função. Passa e repassa ensinamentos, ternura, carinho ou até um endereço qualquer. Assim como um dedo de um fotografo passa emoções através do click. Penso eu, o quanto feliz é a genética humana, herdei um dedo super poderoso de uma mulher super poderosa.


Post dedicado à Regina, Etienne, Helder e a todos os amigos fotógrafos os quais eu convido a reler o texto pensando como fotógrafos.


Fernando Pessoa - O mundo não se fez para pensarmos nele

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…

Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender …

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar …
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar.

2 comentários:

  1. Muito bacana Dih... mais bacana vai ser nosso churrasco ein.. regado a piscina e etc e tal

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  2. Pôxa filho.... que dizer????
    o indicador, tecla sozinho aqui em homenagem ao teu texto e os olhos, esses marejados, dizem muito mais do que o indicador pode teclar...
    Te amo, sempre e mais!!!!

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