segunda-feira, 12 de março de 2012

Caritatis

Um dia desses, voltando pra casa, vi uma senhora no metrô, sentada bem a frente de mim. Impossível de passar despercebida, a senhora tinha um porte corpulento, levava uma criança, a qual ela chamava de filho, numa cadeira de rodas. Além disso, conversava gritando com uma moça conhecida ao seu lado. Antes de me ater a observa-la, pensei em todos os fardos que a vida tinha imposto aquela mulher, tantas coisas ruins que suas palavras ressoavam. Saturada de dores, a decepção com o que a vida tinha trazido pra ela nos últimos dias era perceptível. As vezes em gestos, palavras, grunidos, ou nas eternas marcas cutâneas de preocupação. Tudo tão monocromático como o dia cinzento que teimava a se estender ainda em tempos de horário de verão. Percebi então, que teria que prestar mais atenção as palavras dela. Quando comecei, coincidentemente ou não, a senhora pelejava sobre sua insatisfação com o pagameto divino de toda a sua bondade. Ela que adotou o menino com sérios problemas mentais, o que acabou aumentando o custo familiar dela em tantos reais, que adotou a sobrinha para que o padastro não abusasse dela. E como tudo se despedaçava tão severamente quanto os murros que ela ameaçava dar nessa filha adotiva. Me perguntei o quanto é preciso para alguém que ajuda se arrepender de ajudar. A resposta mais fácil é que depende de cada um. Mas tem que haver uma linha, tênue ou não, ultrapassada por aquela senhora. Suspiros ofegantes e exaltados que praticamente premeditavam um ataque cardíaco, são interrompidos pela moça de ouvidos misericordiosos: “Desceremos na próxima estação”. Antes que eu pudesse concluir meus pensamentos e chegar ao meu próprio entendimento, o vagão para, a porta se abre, pessoas entram antes da senhora sair empurrando a cadeira de rodas, da uma risada que rasga um silencio concedido por alguns segundos que a mesma não balbuciava chingamentos. Então conclui: “Se o juizado não tirar ela de vez de mim, eu me aposento e tiro ela da noite”.

Filantropia de verdade, não espera nada em troca, nem um pedido de obrigado ou de desculpas.


A Caridade

(Machado de Assis, in Crisálidas)

"Ela tinha no rosto uma expressão tão calma
Como o sono inocente e primeiro de uma alma
Donde não se afastou ainda o olhar de Deus;
Uma serena graça, uma graça dos céus* *,
Era-lhe o casto, o brando, o delicado andar,
E nas asas da brisa iam-lhe a ondear
Sobre o gracioso colo as delicadas tranças.

Levava pela mão duas gentis crianças.

Ia caminho. A um lado ouve magoado pranto.
Parou. E na ansiedade ainda o mesmo encanto
Descia-lhe às feições. Procurou. Na calçada
À chuva, ao ar, ao sol, despida, abandonada
A infância lacrimosa, a infância desvalida,
Pedia leito e pão, amparo, amor, guarida.

E tu, ó Caridade, ó virgem do Senhor,
No amoroso seio as crianças tomaste,
E entre beijos – só teus — o pranto lhes secaste
Dando-lhes leito e pão, guarida e amor."





2 comentários:

  1. Filho, meu dia acaba de ficar mais feliz com a descoberta do teu novo blog. Você tem o dom de escrever (entre tantos outros) e criar este blog, é dividir com os outros este dom.
    Parabéns pela iniciativa, parabéns pela sensibilidade de não deixar passar em vão os que cruzam teus caminhos.
    Lindo texto, lindo relato.
    Deus te abençoe.

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  2. Diego, adorei a iniciativa. Eu, como adoradora e escritora nas horas vagas de poesias e crônicas, além de devorar textos diversos, encontrei aqui um local a mais para degustar leituras gostosas. Ontem, na prova tinha um texto de Fabiano Cambota que a cada passagem da leitura me vinha sorrisos na face, ele inventou a FOMURA - Fome de leitura, muito interessante. O texto chama-se Fome, sede e vontade de ler, vale a pena conhecer. Bjs e vá postando para nosso ddeleite de leitor voraz.

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