domingo, 11 de março de 2012

Natus



Desde que reli Viver Para Contar, de Gabriel Garcia Marques, pela segunda vez, venho observando algumas coisas no cotidiano e delas tento sugar o fascínio, as amenidades, misturando tudo com um pouco de imaginação. As vezes um tantão.
Faltava coragem pra levar a ideia a diante e criar o blog. Pois bem, posterguei a preguiça e, hoje, nasce o In Casus. Esse exercício de observar tudo ao redor, de deixar ouvidos e nariz atentos, é de fato aguçado pela minha paixão pela fotografia. Essa paixão me trouxe a uma fase nova da minha vida, a uma nova cidade, a um novo tempo, a uma nova rotina. Essa paixão também me levou a Manoel de Barros. O seu poema chamado O Fotógrafo, que me impulsionou no meu trabalho de conclusão da graduação, me fez descrever em palavras tudo ao redor, mesmo que dentro da minha cabeça, sem por na ponta do lápis, ou do dedo. Eis a obra.

O Fotógrafo

(Manoel de Barros)

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim num beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada mais na existência do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotogafei o perdão.
Vi um paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim cheguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski – seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.


Assim, espero que essa minha aventura, talvez um experimento ego-social, me leve a ampliar o meu campo de visão, eleve minha sensibilidade ao mundo e traga a chance de gostosas viagens em personagens, em parte, reais. Fica o convite a rever o cotidiano, a satura-lo com as emoçoes e pigmenta-los com a criatividade.

2 comentários:

  1. Lembrei da música "ANDANÇA"


    " Só o amor me ensina
    Onde vou chegar"

    Tipo, a paixao pela fotografia. Entendo, amigo.

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  2. Vá fundo!!!! O mundo todo te espera em qualquer esquina.
    Acredite! Tenha Fé! Ame!
    Texto, fotografia e poesia = ao que há de mais simples, lindo e concreto em ti!!!
    Te amo!

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